Poderia escrever palavras ásperas
Frases atravessadas
Onde pudesses ver e refletir sobre o presente
Mas ama demais para ferir
A acidez das letras misturadas,
Sejam escritas ou pronunciadas,
Só abririam cortes semicicatrizados
E fariam novas marcas
Então opta pela paciência
A machucar por não ter o que quer
Dando passos desencontrados,
Desengonçados,
Vai caminhando, enquanto espera
As trincheiras se fecham cada vez mais
O caminho para a união vai ficando restrito
A alternativa que resta
É manterem-se amigos
Chegou a ter um "puxadinho" em seu coração
Hoje foi transferido ao porão
Guardado num baú de boas lembranças
Que pode ser aberto, em algum momento,
Quando se precisar de novas esperanças
E tão perto, tão longe,
Raramente se veem, não se tocam
Fica o olhar do cão para o frango de padaria
Da doméstica para a vitrine da joalheria
O lutador sai do ringue
Perdeu o round, mas não a luta
Olha para as mãos, ensanguentadas,
Por tanto empenho em aparente vã disputa
Não desiste
Cuida da semente que plantou
Regando-a, com todo o carinho,
Desde o dia que a encontrou
A plantinha está bonita
Porém impedida de crescer
Embora não colha os frutos
Jamais vai deixa-la morrer
Pela bifurcação seguem
Na vida desenfreada
Tentando encontrar um retorno
Que os una na mesma estrada
07/11/2010
30/05/2010
O arco-íris além do muro
- Vem, tem um mundo te esperando - diz o amigo, puxando-o pela mão. Ele hesita.- Não sei... - fica parado, confuso.
- Vamos. Você passou anos em cima desse muro, olhando tudo à distância, enquanto todos viviam. Agora que desceu, não tem mais volta. Seu lugar é aqui. Tem um arco-íris de possibilidades mais adiante. Você não vai deixar anoitecer sem curtí-lo, não é?
- Mas os que estão do outro lado não vão entender como vim parar aqui - preocupa-se.
- Alguns já sabiam ou desconfiavam que seu lugar era conosco. Só esperaram, sem se intrometer. Os que te amam vão aceitar. Um ou outro pode fechar a cara e te virar as costas, faz parte do jogo. Mas a quem quer agradar, a eles ou a si?
Não responde e olha ao redor. Depois se vira para o muro.
- Você não podia ficar ali em cima a vida inteira, como voyeur - fala calmamente o amigo. - Venha viver, o tempo está passando, não temos o dia inteiro.
- Eu nunca mais vou poder voltar para lá?
- Claro que pode, isto não é uma prisão, e sim uma libertação. Você não perdeu terreno, agora sua área de trânsito é maior. É como se tirasse carteira de motorista e agora tivesse condições de ir a lugares até então impossíveis à pé. Mesmo que volte, sabe que seu lugar é aqui, que sua zona de conforto e felicidade está nessa parte. Tem gente que circula pelos dois lados do muro, outros por um só, cabe a ti escolher o melhor para você.
- Todos saberão que estou aqui?
- A notícia não está sob seu controle. Mesmo que poucos tenham te visto descer, há sempre quem conte que te viu atravessar. Não se atenha a isso. Volte depois e comunique a quem realmente deva saber. Agora vem ver o arco-íris.
-Como você demorou - diz um deles.
Ao chegar perto percebe que a vida não é muito diferente. Os sentimentos são os mesmos, o que muda são as cores que passa a enxergar naquele recanto. Senta na grama e respira fundo. Se todos entendessem que o mundo não é apenas preto e branco, poderiam apreciar sem ressalvas a beleza do arco-íris, suas combinações e possibilidades.
22/05/2010
Paciência
Cansado. Poderia deixar frases mostrando a insatisfação como subnick do msn ou no Twitter, mas do que adiantaria? Atiçaria a curiosidade alheia, não resolveria o problema e ainda serviria de atrito em uma situação que já é desgastante. Guarda para si e compartilha com um ou outro bem próximo, que acompanha os capítulos dessa novela.
Dando murro em ponta de faca? Quem sabe... As mãos machucadas ainda têm forças para continuar tentando. Imaginação não falta para criar possibilidades de a coisa acontecer. Mas esbarra na realidade e na quase onipresença da lei de Murphy. Um roteiro planejado e a contagem regressiva para o tão esperado momento caem por terra com uma mensagem de duas linhas.
Tem horas que dá vontade de jogar a toalha. Ela se afrouxa entre os dedos e quase chega a tocar o chão. Pode até estar manchada com o sangue dos murros na faca. Volta a sentir o tecido firme na palma da mão e por mais algumas semanas a coloca de novo no pescoço.
Não é hora de abandonar a batalha. Batalha? Não, não está em guerra. Se fosse, entrou no terreno com grande desvantagem na briga pelo prêmio final... E isso pesa. Sabe que a compensação não é pra agora, mas não pede que seja, só quer doses pequenas de alegria perto do que poderia ter. Mas essas doses homeopáticas não vêm, e o pouco que tem vai sendo tirado pouco a pouco, dia após dia.
“Você é livre, anjo”, é o que ouve. Sempre quis ser chamado de anjo. Tem carta branca para seguir sua vida, mas não é tão simples, mesmo que perdesse o contato, apertar o botão “desliga” ou sintonizar outra estação.
Ao mesmo tempo, é uma linda história para decretar o fim. Na verdade, não há fim. Sente que é algo para a vida. Resta ter paciência para deixar o bolo no forno sem ficar abrindo a tampa toda hora para ver se está pronto. Manter o pudim na geladeira até que ganhe consistência. E ir preparando outros pratos nesse meio tempo, mesmo que jamais venham a ter o mesmo sabor.
Dando murro em ponta de faca? Quem sabe... As mãos machucadas ainda têm forças para continuar tentando. Imaginação não falta para criar possibilidades de a coisa acontecer. Mas esbarra na realidade e na quase onipresença da lei de Murphy. Um roteiro planejado e a contagem regressiva para o tão esperado momento caem por terra com uma mensagem de duas linhas.
Tem horas que dá vontade de jogar a toalha. Ela se afrouxa entre os dedos e quase chega a tocar o chão. Pode até estar manchada com o sangue dos murros na faca. Volta a sentir o tecido firme na palma da mão e por mais algumas semanas a coloca de novo no pescoço.
Não é hora de abandonar a batalha. Batalha? Não, não está em guerra. Se fosse, entrou no terreno com grande desvantagem na briga pelo prêmio final... E isso pesa. Sabe que a compensação não é pra agora, mas não pede que seja, só quer doses pequenas de alegria perto do que poderia ter. Mas essas doses homeopáticas não vêm, e o pouco que tem vai sendo tirado pouco a pouco, dia após dia.
“Você é livre, anjo”, é o que ouve. Sempre quis ser chamado de anjo. Tem carta branca para seguir sua vida, mas não é tão simples, mesmo que perdesse o contato, apertar o botão “desliga” ou sintonizar outra estação.
Ao mesmo tempo, é uma linda história para decretar o fim. Na verdade, não há fim. Sente que é algo para a vida. Resta ter paciência para deixar o bolo no forno sem ficar abrindo a tampa toda hora para ver se está pronto. Manter o pudim na geladeira até que ganhe consistência. E ir preparando outros pratos nesse meio tempo, mesmo que jamais venham a ter o mesmo sabor.
02/02/2010
Almoço garantido
Os meninos sobem pela porta de trás do ônibus. Em segundos sua algazarra domina o ambiente. Ao olhar para o fundo, todos já estão sentados, cantando e conversando alto. Carregam sacos com frutas e verduras, recém recolhidos da feira. Um dos garotos, de cerca de 11 anos, fica em pé, ergue e analisa o saco rosado com frutas, como se fosse um troféu. Depois olha para o que está na outra mão, um plástico mais escuro, entre o verde e o azul, com várias verduras.
Ele solta um sorriso que julgamos não mais ver no rosto daquelas crianças. Aberto, sincero, puro, que ilumina completamente a face. Cada um conta o quanto conseguiu pegar. Ouvir outro som que não seja o deles é impossível, falam um mais alto que o outro. Começam a cantar raps que se assemelham às desgraças de seu cotidiano. Com a mesma rapidez que subiram, descem e silenciam o ambiente. Atravessam a rua e levam suas conquistas para debaixo do viaduto. É o momento mais alegre do dia por ali. O almoço de hoje está garantido.
Ele solta um sorriso que julgamos não mais ver no rosto daquelas crianças. Aberto, sincero, puro, que ilumina completamente a face. Cada um conta o quanto conseguiu pegar. Ouvir outro som que não seja o deles é impossível, falam um mais alto que o outro. Começam a cantar raps que se assemelham às desgraças de seu cotidiano. Com a mesma rapidez que subiram, descem e silenciam o ambiente. Atravessam a rua e levam suas conquistas para debaixo do viaduto. É o momento mais alegre do dia por ali. O almoço de hoje está garantido.
31/10/2009
"É cedo ou tarde demais..."
27 anos. Terá chegado a um terço da vida? Não é hora para responder, só o tempo dirá. E o que fez desse tempo, valeu a pena? Como aproveitar melhor os próximos 27? E os próximos?
As constatações da idade assustam um pouco. Uma pessoa com mais de 30 (32, 35, por exemplo), já não pode ser considerada velha para ser companheira; com 18 (ainda) não é nova demais. É estranho pegar um ônibus em horário da saída escolar e perceber que boa parte dos que estão ali nasceram 10 anos ou mais depois de você.
Os cálculos dos eventos que virão não são animadores. Estará com quantos anos na Copa de 2014? E na Olimpíada de 2016, ambas no Brasil? Vai ver o fim do século XXI? Impossível não é, mas sim uma meta ousada, fantasiosa, quase um sonho infantil.
Será uma pré-crise dos 30 aos 27 em plena noite de insônia? Provavelmente isso tudo veio a mente por ter parado para pensar em tudo que não dá tempo de matutar na correria (ou falta de organização do tempo) do dia a dia. Se 27 faz refletir, em contrapartida é cedo para imaginar o fim.
Há muito o que fazer, e o desafio é tornar cada dia proveitoso. O balanço mostra que não jogou a vida fora até agora e que dois passos que tomou sem medo dos perigos mostraram-se os mais sensatos (graças a eles está onde está hoje, e pode chegar muito mais longe). A cada festa que vai ou encontro em casa de amigos, tem ciência que, se não tivesse tomado aquela atitude aos 18, nada disso seria possível. Seu coração se enche de satisfação e orgulho. Emociona-se levemente, mas não chora, fica feliz e abre um sorriso largo e bobo, de quem fez a coisa certa.
As constatações da idade assustam um pouco. Uma pessoa com mais de 30 (32, 35, por exemplo), já não pode ser considerada velha para ser companheira; com 18 (ainda) não é nova demais. É estranho pegar um ônibus em horário da saída escolar e perceber que boa parte dos que estão ali nasceram 10 anos ou mais depois de você.
Os cálculos dos eventos que virão não são animadores. Estará com quantos anos na Copa de 2014? E na Olimpíada de 2016, ambas no Brasil? Vai ver o fim do século XXI? Impossível não é, mas sim uma meta ousada, fantasiosa, quase um sonho infantil.
Será uma pré-crise dos 30 aos 27 em plena noite de insônia? Provavelmente isso tudo veio a mente por ter parado para pensar em tudo que não dá tempo de matutar na correria (ou falta de organização do tempo) do dia a dia. Se 27 faz refletir, em contrapartida é cedo para imaginar o fim.
Há muito o que fazer, e o desafio é tornar cada dia proveitoso. O balanço mostra que não jogou a vida fora até agora e que dois passos que tomou sem medo dos perigos mostraram-se os mais sensatos (graças a eles está onde está hoje, e pode chegar muito mais longe). A cada festa que vai ou encontro em casa de amigos, tem ciência que, se não tivesse tomado aquela atitude aos 18, nada disso seria possível. Seu coração se enche de satisfação e orgulho. Emociona-se levemente, mas não chora, fica feliz e abre um sorriso largo e bobo, de quem fez a coisa certa.
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