5 de ago de 2009

Quién me va a curar el corazón partío?

Todos os domingos parte de coração partido. Mas sabe que tem de ser assim. Se fica muitos dias, acaba a despedida se torna mais díficil.

Os que ama ficam para trás. Sempre que chega com as sacolas de roupas é recebido com um sorriso sincero da tia e um abraço que dura segundos, mas o conforta. A cachorra chora, abana o rabo freneticamente e faz xixi no chão. O gato está em algum canto da casa, e logo é descoberto. Quando o pega no colo, ele fica quietinho e dorme. Não quer mais soltá-lo.

Com os primos conversa, manchetes são soltas rapidamente por cada um para atualizá-lo. O mais novo pede R$ 2. Dorme e no dia seguinte acorda cedo para visitar o cachorro, que ficou na casa do tio. Às vezes fica com o coração apertado por a vida do bicho ter felicidade a conta-gotas: esperar a semana inteira (o hiato já chegou a 19 dias) por um pouco de carinho.

Sente saudade, mas sabe que ficaria entediado se passasse muitos dias lá. Profissionalmente não seria feliz, mesmo que um prédio público lhe sorrisse e tentasse seduzí-lo com falsas ofertas de uma vida calma e confortável. Seu tema nessas horas poderia ser esse:

- Deixe um beijo de adeus, pelo menos pra ficar como saudades... Olha bem nos olhos meus, já não tem como chorar, tanta maldade...*
- Eu queria tanto poder ficar mais um pouco aqui. Gostaria muito de poder dizer, não vou mais partir...*

Mais uma semana começa. De baterias recarregadas, espera pelo próximo fim de semana.

* Trecho adaptado da música Felicidade Escondida - Sem Compromisso

3 de ago de 2009

Quermesse na favela

Noite de festa. O beco foi decorado com bandeirinhas feitas de jornais de supermercado, penduradas em volta das casas e passadas de um lado a outro em varais. Alguns galhos com folhas foram colocados nos portões. É a quermesse da favela.

No centro, duas caixas de som de 1,20m animam os moradores. No caminho até lá, uma fogueira esquenta a noite gelada. As crianças brincam e dançam próximas à música, sem se importar com o horário. Um locutor anima a disputa de forró. Para as crianças, o prêmio são duas garrafas de refrigerante. Já os adultos vão ganhar 12 latas de cerveja.

Ao olhar para trás, vê-se um fusca azul calcinha estacionado e donas de casa com bebês no colo, dando de mamar. Quentão, batida, bolos e tortas custam R$ 1. Cocada e cachaça saem por R$ 0,50. Mulheres acima de 40 anos voltam a agir como crianças, cantam e dançam sem vergonha de serem felizes. Sentem-se autênticas, sem máscaras nem preocupações sobre o que os outros vão pensar.

Alguns chegam e contam que apanharam da polícia em outro beco. Mas os homens de farda não ousam aparecer para estragar a festa. Naquela rua de terra, na qual os casais dançavam sobre cacos de ladrilho branco, não havia nada de errado. Se divertir não é crime.

Na dança, não há vencedor. As duplas empatam e o prêmio é dividido: uma latinha para cada um que dançou e o restante distribuído para os amigos que acompanharam e torceram. O que importa é o espírito de comunidade. Deu para molhar a goela.

25 de mai de 2009

Povo marcado, povo feliz

Histórias de vida construídas sobre o chão de terra. Paredes de madeira, frágeis, às vezes úmidas. Crianças correm sem camisa com os irmãos. A lâmpada mal encaixada no bocal ilumina o cômodo. Ler é luxo. Cinema? Há anos não vão. A TV resolve. Distrai.

Pegar no pesado é normal. Jovens empurram carrinhos de mão, carregam sacos nas costas, sabem resolver qualquer problema elétrico ou de construção. O que não tem em estudo, compensam em disposição para o trabalho e, na maioria das vezes, no caráter, na honestidade. São pobres, mas não seguem o caminho mais fácil. Não roubam. Preferem pedir, mesmo que seja para o vizinho cuja situação não é tão melhor. Se ajudam. Vivem.

O clima, apesar das dificuldades, é de harmonia. Jogam sinuca, tomam cerveja, fazem um churrasco para reunir os amigos. As vielas não são problema. Os convidados sabem muito bem chegar ali.

As roupas de marca são valorizadas. Usar um tênis caro ou uma camisa conhecida dá status. Gostam de se arrumar. Também há vaidade ali.

As crianças crescem, se envolvem, aumentam a família. Um cantinho é construído do lado ou em cima do barraco dos pais. O tempo vai passando e as oportunidades são poucas para sair dali. Acabam ensinando a todos, sem perceber, uma grande lição. Conseguem ser felizes, apesar das dificuldades.

15 de mai de 2009

Cenas da metrópole

Anoitecia. Na avenida movimentada, pessoas encasacadas circulavam em direções opostas. Tempo fechado, a garoa ameaçava cair. O termômetro no canteiro central marcava 13º. A pressa de todos já não era tanta. É sexta-feira. Para muitos, encerrou-se o último dia de trabalho da semana.

Encostado em um muro, um homem toca "Yesterday" no saxofone. O som transforma a metrópole por alguns instantes em uma cidade europeia. Frio, gente bem vestida, música boa. Pena que ao atravessar a rua já não se pode mais ouvir.

Outra cena salta aos olhos. Um idoso cai no meio da calçada. A muleta fica longe de seu alcance. Magro, negro, de casaco cinza, mãos e pés marcados pelo tempo. Começa a tremer. Está bêbado? Sofrendo um ataque epilético? Ou é um golpe para assaltar? As hipóteses são levantadas pelos que passam, olham e seguem seu caminho.

Uma mulher grita repetidamente "Moço, ajuda ele", para os pedestres. Medo e indiferença fazem seus apelos não serem ouvidos. O homem ficou para trás. São Paulo não para.

14 de mai de 2009

Fugas

Vive fugindo, de várias formas. Foge das tarefas indo pra academia. Foge da academia dizendo que tem muitas tarefas a cumprir. Se refugia delas na cozinha. Esquece da vida, sente-se seguro lá.

No computador, perde-se em emails pessoais, orkut, youtube, pesquisas sobre algo que resolve começar e não termina. Lapsos de vontades que nada mais são do que novas fugas. Tudo para consumir o tempo e não dar de cara com as atividades. Gosta do que faz, é feliz com seu trabalho mas, em casa, quando deveria cumpri-las, foge, não sabe o por quê. Seu desafio? Fazer o dia render e encarar com disciplina tudo. Deixa-se seduzir pela cama, pela internet, pelos papos efêmeros via msn, pela TV.

No ritmo atual, o dia precisaria ter 40 horas para dar conta de tudo. Mas ele promete resolver as pendências em um final de semana. E ficará frustrado caso não concretize a meta. Por hoje já está melhor. Acaba de terminar uma das tarefas que há tempos prometia.