27 de fev de 2008

O mudinho

Vez ou outra via um mudinho no bar da entrada do bairro. Ficava perto do bicheiro, e ganhava alguns trocados de quem ia fazer uma fezinha, ou do próprio 'contraventor penal'. Franzino, tinha o sorriso fácil e o linguajar nas mãos. Cumprimentava quem se aproximasse com a maior facilidade.

Aos poucos o mudinho desapareceu do lado da mesa. Estudava na escola do bairro vizinho. O tempo passou e uma noite, quando ia para a faculdade, o viu novamente. Mais magro, com a bermuda um pouco suja, percorria os coletivos, pedindo dinheiro para comer.

De banco em banco, o garoto levava a mão esquerda à altura do maxilar. Com a palma virada para cima, flexionava duas vezes os dedos em direção à boca, no típico gesto de quem quer comer. Em seguida, acariciava de forma circular a barriga e estendia a mão, pedindo dinheiro. Diante da negativa, juntava as pontas do polegar e do indicador e virava a mão para baixo, repetindo o movimento de colocar um vale-transporte na catraca eletrônica. Se ainda assim nada recebesse, fazia o sinal de positivo e ia para o próximo banco. Quase ninguém atendia seu apelo silencioso.

Na primeira vez, o mudinho ficou constrangido ao ver o conhecido da época da mesa do bicheiro. Pensou em nada pedir, mas o rapaz lhe deu as moedas que tinha no bolso e recebeu o aperto especial, cumprimento dos velhos tempos. Ainda o viu no ônibus outras vezes, até desaparecer novamente por um novo período.

Já trabalhando como jornalista e nem lembrando mais do mudinho, certa vez o destino deu-lhe a chance de saber que rumo o garoto tivera. Naquele dia estava responsável pela página policial do jornal e fora à delegacia, verificar as ocorrências. Acabara de chegar um flagrante de um rapaz pêgo furtando produtos de um supermercado.

Olhou e viu o mudinho, em pé, com um policial de cada lado, segurando seus braços. Mudara bastante. O sorriso fácil de criança parecia que nunca mais sairia daquele rosto. Alto, com 18 anos e corpo inacabado de adolescente, olhava para baixo. A face suja, o cabelo desgranhado, adquiriu uma fisionomia de bandido. Talvez estivesse usando drogas, ou roubando apenas para sobreviver. Não era a primeira vez que Mudinho (sim, agora com letra maiúscula, como era conhecido pelos policiais), era detido roubando alimentos.

Desta vez foi o jornalista quem ficou constrangido. Para sua sorte, o mudinho não o reconheceu. Não saberia como encarar o garoto de outrora que agora estava ali, prestes a ser preso. Arrependeu-se das vezes em que não o ajudou no ônibus. Sentiu-se um pouco culpado pela cena que estava presenciando.

Deu uma olhada nas fotos, na ficha de Mudinho. Ouviu os policiais e foi embora. Foi a matéria policial que mais lhe doeu escrever. A matéria saiu, assim como as outras da página policial, mas ele não ouviu a história do mudinho.

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