27 de ago. de 2015

Lembranças da tarde

Sente sem pressa o vento percorrer a tarde e tocar seu rosto. Sentado no murinho do terraço com a cabeça recostada à parede, uma perna esticada, outra flexionada na vertical repousando o cotovelo, relaxa enquanto o cachorro o espera refastelado no chão, sempre fiel aos movimentos do dono. Pelo portão passam donas de casa com suas sacolas e eventualmente guarda-chuvas protegendo-as do sol. Pessoas voltam do trabalho, crianças jogam bola ou taco mais no fim da rua. De um lado do céu já dá pra ver o reflexo da lua com um sorriso, às vezes tímido, outras gigante, brincando de pega-pega com o sol cansado a se pôr.

 Pardais - e excepcionalmente outros pássaros - vão e vêm do telhado aos fios do poste. Quando mais novo, tentava acertá-los jogando pedaços de madeira - por sorte sua mira não era boa e jamais atingiu seu objetivo. Não queria matar, apenas olhar um deles de perto por um tempo em suas mãos e depois deixá-lo voar.

As moscas já não tinham a mesma sorte. Chegava a apanhar no quintal até 15 em um dia e dar para as formigas, que moravam nas frestas do beiral da janela da sala, atrás do xaxim de renda portuguesa. Talvez seu ato mais cruel na vida tenha sido arrancar-lhes uma das asas e passar minutos vendo-as se debatendo enquanto eram devoradas pelas formigas. Esperava até o momento em que arrancavam-lhe a cabeça para então pegar outra, e outra. Não, não há orgulho nisso, coisa de criança, mas era uma forma de distração, além do pseudo-argumento que estava fazendo um bem, já que a morte daquele inseto servia para alimentar outro.

O espaço é grande e não sente tédio. Conversa com o "pé de bichinhos brancos" - que nunca soube do que era, mas deu esse apelido por causa das manchas -, vê folhas que mal alcança se fecharem quando o sol vai embora, olha a magra goiabeira e ri ao falar "jurubeba", ambas plantadas "atrás da casa" (quando na verdade era na parte lateral).

Observa as pipas nas ruas mas não sente inveja de quem pode empiná-las. Na maior parte do tempo sua imaginação basta. No balde do tanque, coloca seus bonequinhos para nadar no "oceano". O já citado xaxim se transforma em uma ilha. Cada cômodo vira uma "dimensão" pela qual os personagens atravessam. E o "Show de Bonecos" que dirigia era transmitido para China e Índia, muito antes desses países serem considerados emergentes.

Eventualmente o bolo de laranja, desses industrializados mesmo, partidinho no pires com um copo de leite faz a alegria do seu lanche.Mais cedo, quando o cheiro da cozinha invade a casa, vai até a avó, que lhe dá almôndegas antes do almoço. Ajuda o tio a trocar a água e o alpiste dos pássaros que ficavam nas gaiolas - um casal de canários chegou a ter dois filhotes e, passando a observar o crescimento deles, deixou de lado os pobres pardais.

Os dias eram leves como o vento que beijava sem pressa seu rosto no murinho. Tantos anos depois, em uma tarde de chuva sem terraço, animais, plantas ou almôndegas, o vento traz de volta na janela, sem melancolia, as lembranças que tantas vezes presenciou.

25 de set. de 2012

Você


Esse é você?
Que você?
Você?
Onde estava você?

Eu sou você

Não era você
Mas estava em você
Você não vê?

Pra onde vai você?

De que lugar vem a nascer
Sua força vital de ser?
O que faz de você, você?

Até quando estarei em você

Serei você
Amarei a mim e a você
Sem saber quem sou eu ou você?

Você me deixará ser

O que eu quiser
O que você quiser
Ou o que tiver que ser?

Cadê eu, cadê você?

Como saber
Se sou eu, se sou você?
Afinal, quem é você?

7 de nov. de 2010

Poesia

Poderia escrever palavras ásperas
Frases atravessadas
Onde pudesses ver e refletir sobre o presente
Mas ama demais para ferir

A acidez das letras misturadas,
Sejam escritas ou pronunciadas,
Só abririam cortes semicicatrizados
E fariam novas marcas

Então opta pela paciência
A machucar por não ter o que quer
Dando passos desencontrados,
Desengonçados,
Vai caminhando, enquanto espera

As trincheiras se fecham cada vez mais
O caminho para a união vai ficando restrito
A alternativa que resta
É manterem-se amigos

Chegou a ter um "puxadinho" em seu coração
Hoje foi transferido ao porão
Guardado num baú de boas lembranças
Que pode ser aberto, em algum momento,
Quando se precisar de novas esperanças

E tão perto, tão longe,
Raramente se veem, não se tocam
Fica o olhar do cão para o frango de padaria
Da doméstica para a vitrine da joalheria

O lutador sai do ringue
Perdeu o round, mas não a luta
Olha para as mãos, ensanguentadas,
Por tanto empenho em aparente vã disputa

Não desiste
Cuida da semente que plantou
Regando-a, com todo o carinho,
Desde o dia que a encontrou

A plantinha está bonita
Porém impedida de crescer
Embora não colha os frutos
Jamais vai deixa-la morrer

Pela bifurcação seguem
Na vida desenfreada
Tentando encontrar um retorno
Que os una na mesma estrada

30 de mai. de 2010

O arco-íris além do muro

- Vem, tem um mundo te esperando - diz o amigo, puxando-o pela mão. Ele hesita.

- Não sei... - fica parado, confuso.

- Vamos. Você passou anos em cima desse muro, olhando tudo à distância, enquanto todos viviam. Agora que desceu, não tem mais volta. Seu lugar é aqui. Tem um arco-íris de possibilidades mais adiante. Você não vai deixar anoitecer sem curtí-lo, não é?

- Mas os que estão do outro lado não vão entender como vim parar aqui - preocupa-se.

- Alguns já sabiam ou desconfiavam que seu lugar era conosco. Só esperaram, sem se intrometer. Os que te amam vão aceitar. Um ou outro pode fechar a cara e te virar as costas, faz parte do jogo. Mas a quem quer agradar, a eles ou a si?

Não responde e olha ao redor. Depois se vira para o muro.

- Você não podia ficar ali em cima a vida inteira, como voyeur - fala calmamente o amigo. - Venha viver, o tempo está passando, não temos o dia inteiro.

- Eu nunca mais vou poder voltar para lá?

- Claro que pode, isto não é uma prisão, e sim uma libertação. Você não perdeu terreno, agora sua área de trânsito é maior. É como se tirasse carteira de motorista e agora tivesse condições de ir a lugares até então impossíveis à pé. Mesmo que volte, sabe que seu lugar é aqui, que sua zona de conforto e felicidade está nessa parte. Tem gente que circula pelos dois lados do muro, outros por um só, cabe a ti escolher o melhor para você.

- Todos saberão que estou aqui?

- A notícia não está sob seu controle. Mesmo que poucos tenham te visto descer, há sempre quem conte que te viu atravessar. Não se atenha a isso. Volte depois e comunique a quem realmente deva saber. Agora vem ver o arco-íris.

O início do caminho tem pedras escorregadias e cortantes, como as que passou até subir no muro. A chance de se machucar é grande. Tem medo e para em diversos momentos. Mas no fundo sente que é difícil voltar atrás. Muitos que conhece atravessaram antes dele e estão lá, vivendo, aprendendo, tentando ser felizes. Sorriem ao vê-lo e lhe dão as boas-vindas.

-Como você demorou - diz um deles.

Ao chegar perto percebe que a vida não é muito diferente. Os sentimentos são os mesmos, o que muda são as cores que passa a enxergar naquele recanto. Senta na grama e respira fundo. Se todos entendessem que o mundo não é apenas preto e branco, poderiam apreciar sem ressalvas a beleza do arco-íris, suas combinações e possibilidades.

2 de fev. de 2010

Almoço garantido

Os meninos sobem pela porta de trás do ônibus. Em segundos sua algazarra domina o ambiente. Ao olhar para o fundo, todos já estão sentados, cantando e conversando alto. Carregam sacos com frutas e verduras, recém recolhidos da feira. Um dos garotos, de cerca de 11 anos, fica em pé, ergue e analisa o saco rosado com frutas, como se fosse um troféu. Depois olha para o que está na outra mão, um plástico mais escuro, entre o verde e o azul, com várias verduras.

Ele solta um sorriso que julgamos não mais ver no rosto daquelas crianças. Aberto, sincero, puro, que ilumina completamente a face. Cada um conta o quanto conseguiu pegar. Ouvir outro som que não seja o deles é impossível, falam um mais alto que o outro. Começam a cantar raps que se assemelham às desgraças de seu cotidiano. Com a mesma rapidez que subiram, descem e silenciam o ambiente. Atravessam a rua e levam suas conquistas para debaixo do viaduto. É o momento mais alegre do dia por ali. O almoço de hoje está garantido.

5 de ago. de 2009

Quién me va a curar el corazón partío?

Todos os domingos parte de coração partido. Mas sabe que tem de ser assim. Se fica muitos dias, acaba a despedida se torna mais díficil.

Os que ama ficam para trás. Sempre que chega com as sacolas de roupas é recebido com um sorriso sincero da tia e um abraço que dura segundos, mas o conforta. A cachorra chora, abana o rabo freneticamente e faz xixi no chão. O gato está em algum canto da casa, e logo é descoberto. Quando o pega no colo, ele fica quietinho e dorme. Não quer mais soltá-lo.

Com os primos conversa, manchetes são soltas rapidamente por cada um para atualizá-lo. O mais novo pede R$ 2. Dorme e no dia seguinte acorda cedo para visitar o cachorro, que ficou na casa do tio. Às vezes fica com o coração apertado por a vida do bicho ter felicidade a conta-gotas: esperar a semana inteira (o hiato já chegou a 19 dias) por um pouco de carinho.

Sente saudade, mas sabe que ficaria entediado se passasse muitos dias lá. Profissionalmente não seria feliz, mesmo que um prédio público lhe sorrisse e tentasse seduzí-lo com falsas ofertas de uma vida calma e confortável. Seu tema nessas horas poderia ser esse:

- Deixe um beijo de adeus, pelo menos pra ficar como saudades... Olha bem nos olhos meus, já não tem como chorar, tanta maldade...*
- Eu queria tanto poder ficar mais um pouco aqui. Gostaria muito de poder dizer, não vou mais partir...*

Mais uma semana começa. De baterias recarregadas, espera pelo próximo fim de semana.

* Trecho adaptado da música Felicidade Escondida - Sem Compromisso

3 de ago. de 2009

Quermesse na favela

Noite de festa. O beco foi decorado com bandeirinhas feitas de jornais de supermercado, penduradas em volta das casas e passadas de um lado a outro em varais. Alguns galhos com folhas foram colocados nos portões. É a quermesse da favela.

No centro, duas caixas de som de 1,20m animam os moradores. No caminho até lá, uma fogueira esquenta a noite gelada. As crianças brincam e dançam próximas à música, sem se importar com o horário. Um locutor anima a disputa de forró. Para as crianças, o prêmio são duas garrafas de refrigerante. Já os adultos vão ganhar 12 latas de cerveja.

Ao olhar para trás, vê-se um fusca azul calcinha estacionado e donas de casa com bebês no colo, dando de mamar. Quentão, batida, bolos e tortas custam R$ 1. Cocada e cachaça saem por R$ 0,50. Mulheres acima de 40 anos voltam a agir como crianças, cantam e dançam sem vergonha de serem felizes. Sentem-se autênticas, sem máscaras nem preocupações sobre o que os outros vão pensar.

Alguns chegam e contam que apanharam da polícia em outro beco. Mas os homens de farda não ousam aparecer para estragar a festa. Naquela rua de terra, na qual os casais dançavam sobre cacos de ladrilho branco, não havia nada de errado. Se divertir não é crime.

Na dança, não há vencedor. As duplas empatam e o prêmio é dividido: uma latinha para cada um que dançou e o restante distribuído para os amigos que acompanharam e torceram. O que importa é o espírito de comunidade. Deu para molhar a goela.

25 de mai. de 2009

Povo marcado, povo feliz

Histórias de vida construídas sobre o chão de terra. Paredes de madeira, frágeis, às vezes úmidas. Crianças correm sem camisa com os irmãos. A lâmpada mal encaixada no bocal ilumina o cômodo. Ler é luxo. Cinema? Há anos não vão. A TV resolve. Distrai.

Pegar no pesado é normal. Jovens empurram carrinhos de mão, carregam sacos nas costas, sabem resolver qualquer problema elétrico ou de construção. O que não tem em estudo, compensam em disposição para o trabalho e, na maioria das vezes, no caráter, na honestidade. São pobres, mas não seguem o caminho mais fácil. Não roubam. Preferem pedir, mesmo que seja para o vizinho cuja situação não é tão melhor. Se ajudam. Vivem.

O clima, apesar das dificuldades, é de harmonia. Jogam sinuca, tomam cerveja, fazem um churrasco para reunir os amigos. As vielas não são problema. Os convidados sabem muito bem chegar ali.

As roupas de marca são valorizadas. Usar um tênis caro ou uma camisa conhecida dá status. Gostam de se arrumar. Também há vaidade ali.

As crianças crescem, se envolvem, aumentam a família. Um cantinho é construído do lado ou em cima do barraco dos pais. O tempo vai passando e as oportunidades são poucas para sair dali. Acabam ensinando a todos, sem perceber, uma grande lição. Conseguem ser felizes, apesar das dificuldades.

15 de mai. de 2009

Cenas da metrópole

Anoitecia. Na avenida movimentada, pessoas encasacadas circulavam em direções opostas. Tempo fechado, a garoa ameaçava cair. O termômetro no canteiro central marcava 13º. A pressa de todos já não era tanta. É sexta-feira. Para muitos, encerrou-se o último dia de trabalho da semana.

Encostado em um muro, um homem toca "Yesterday" no saxofone. O som transforma a metrópole por alguns instantes em uma cidade europeia. Frio, gente bem vestida, música boa. Pena que ao atravessar a rua já não se pode mais ouvir.

Outra cena salta aos olhos. Um idoso cai no meio da calçada. A muleta fica longe de seu alcance. Magro, negro, de casaco cinza, mãos e pés marcados pelo tempo. Começa a tremer. Está bêbado? Sofrendo um ataque epilético? Ou é um golpe para assaltar? As hipóteses são levantadas pelos que passam, olham e seguem seu caminho.

Uma mulher grita repetidamente "Moço, ajuda ele", para os pedestres. Medo e indiferença fazem seus apelos não serem ouvidos. O homem ficou para trás. São Paulo não para.

14 de mai. de 2009

Fugas

Vive fugindo, de várias formas. Foge das tarefas indo pra academia. Foge da academia dizendo que tem muitas tarefas a cumprir. Se refugia delas na cozinha. Esquece da vida, sente-se seguro lá.

No computador, perde-se em emails pessoais, orkut, youtube, pesquisas sobre algo que resolve começar e não termina. Lapsos de vontades que nada mais são do que novas fugas. Tudo para consumir o tempo e não dar de cara com as atividades. Gosta do que faz, é feliz com seu trabalho mas, em casa, quando deveria cumpri-las, foge, não sabe o por quê. Seu desafio? Fazer o dia render e encarar com disciplina tudo. Deixa-se seduzir pela cama, pela internet, pelos papos efêmeros via msn, pela TV.

No ritmo atual, o dia precisaria ter 40 horas para dar conta de tudo. Mas ele promete resolver as pendências em um final de semana. E ficará frustrado caso não concretize a meta. Por hoje já está melhor. Acaba de terminar uma das tarefas que há tempos prometia.

25 de nov. de 2008

Um dia a cada 4 anos

Cubatão amanheceu no domingo de eleição cheia de papel molhado. A chuva que atingiu a cidade nas primeiras horas da manhã estragou a estratégia dos candidatos, que colocaram seus cabos eleitorais para jogar os 'santinhos' pelo chão durante a madrugada.


O que se viu ao andar pelas ruas foi o cinza do asfalto e o avermelhado das vias de terra salpicados de branco. Os papéis se transformaram em uma massa escorregadia, perigo principalmente para os idosos. Antes da eleição começar, três garis se esforçavam para limpar a calçada de um supermercado, às 7h30. O dia seria longo para esses trabalhadores, cuja missão é diminuir a "sujeira" da democracia.


As passarelas da cidade foram utilizadas para boca-de-urna. Quem passava por uma delas era alvo de santinhos ou colantes nos braços. Gente uniformizada era rápida em tentar lhe convencer que seu candidato era o melhor em pouquíssimas palavras. Simpatia não faltou. Vez ou outra os carros que circulavam por baixo recebiam uma chuva de papéis.


Com a lei seca suspensa, as pessoas bebiam nos bares e padarias. A princípio, de forma discreta, nos balcões. Depos do meio-dia, já ocupavam as mesas e brindavam alegremente. No final da tarde, esses locais estavam completamente lotados.


Nas escolas se prepara o futuro todos os dias. Neste domingo não foi diferente. Após decidir o que vai acontecer nos próximos quatro anos, conhecidos se encontram ali mesmo no portão da saída e engatam um papo, tornando o dia um pouco mais alegre. Do lado de fora, a propaganda explícita nos carros com fotos e números de candidatos, estacionados estratégicamente bem próximos aos colégios.


Em locais nos quais não havia escolas por perto, parecia um dia comum, não fosse a sujeira. Na Vila São José, algumas crianças brincavam e donas de casa estendiam roupas no varal. Certas ruas do Centro estavam desertas, movimento típico de um domingo na cidade.


Mas nem todos votam em seu bairro. E se locomover em Cubatão faz lembrar um dos problemas que precisa de solução: o transporte coletivo. Foram 54 minutos de espera por um ônibus do Jardim Casqueiro ao Centro. Não fossem as lotações - passaram cinco durante esse período - seria o caos.


Na Escola Estadual Afonso Schmidt, o maior colégio eleitoral da cidade, com 5042 eleitores, a tarde era tranquila. Policiais passaram avisando que não queriam boca-de-urna por ali. Uma portadora de necessidades especiais não conseguiu exercer seu direito e cumprir sua obrigação, pois a seção onde votava era no primeiro andar. Foi orientada a procurar o cartório. Recusou-se a ser carregada até o local. "É muito constrangedor, e não é a primeira vez que isso acontece", disse.


Chega a hora da apuração. Um telão foi improvisado na Praça Princesa Izabel, ao lado da Justiça Eleitoral. Às primeiras urnas só chegaram às 17h48. Após cerca de dois meses de envolvimento, ninguém quer ir embora sem conferir o resultado final. Músicas de campanha eram cantadas, bandeiras serviam como manto de esperança às costas cansadas, banners eram erguidos com orgulho. Parecia final de campeonato. O programa daquele domingo foi outro. Nada de assistir a Faustão e Gugu, o negócio é sentar embaixo de uma árvore na praça, como deve ter sido o final de tarde de um domingo perdido no tempo.


Começa a chover, e a multidão não desgruda os olhos do telão, que por mais de duas horas teimava em mostrar os mesmos números - houve problemas com o site do TRE, retardando bastante o fim da apuração. Guarda-chuvas de várias cores protegiam vários rostos sofridos e uma nova geração, que por algum motivo estava ali. Já que o resultado oficial não sai, a festa é antecipada pela Liga Independente das Bandas e Blocos Carnavalescos de Cubatão. Por volta das 20 horas, no meio do povo, o som do batuque fazia por um instante estarmos em fevereiro. Parecia carnaval.


Fogos de artifício coloriram o céu algumas vezes. Era cada vez mais difícil andar entre as pessoas. Após as 21 horas, euforia: aparecem os primeiros resultados para vereador. O tempo vai passando, a chuva não pára e aos poucos o público vai diminuindo. São 23h28, e segunda-feira é preciso acordar cedo, dia de batente. O resultado final saiu 0h30, e pelo menos um terço de toda aquela gente ainda estava lá, aguardando.


Os eleitores deram seu espetáculo aquele dia. Pena não ver o mesmo empenho depois, para tomar as ruas novamente e cobrar seus direitos.

4 de mar. de 2008

Despedida

Passava de 1 da manhã. Corajosa, enfrentava o frio da madrugada para dar adeus ao filho. Vestia apenas um casaco fino, bem velhinho, e uma minissaia, que não escondia o tremor das pernas franzinas. Seu rosto surrado, marcado pelo tempo, ganhou feições doces, como só as mães conseguem fazer. Não desgrudava os olhos cheios de ternura do filho, que subia no ônibus.

Levava às mãos à boca e jogava beijos ao filho que partia. Ele muito provavelmente sabia o quanto era querido, e talvez tenha sido tomado por um aperto no peito, uma vontade louca de descer e abraçá-la mais uma vez, dizendo "Mãe, não chora, eu te amo muito. Volto correndo, logo, logo, e quero ver a senhora bem, pra ganhar outro abraço gostoso. Fica com Deus". Ou então não diria nada, apenas sentiria o quanto é bom ter o amor mais puro do mundo, o de mãe e filho.

Ele era a maior riqueza da vida dessa mulher humilde, vivida, que há tempos parece ter perdido a vaidade - seus cabelos emaranhados, cobrindo o pescoço, e a ausência de maquiagem demonstravam isso.

O ônibus parte, levando seu filho para outro Estado. A franzina senhora caminha sozinha para casa, tiritando de frio, mas com um misto de orgulho, satisfação e saudade no rosto. Cumpriu com êxito a tarefa de todas as mães: criar, com muito amor, um filho pro mundo.

29 de fev. de 2008

Sonhos

Nossos sonhos na vida são como sonhos de padaria. Cada um tem um gosto diferente. Devemos experimentá-los o máximo possível. Alguns vamos gostar e querer novamente. Outros acharemos ruins e jamais voltaremos a provar.

Não precisamos ter medo de trocar de sonhos. Um sonho bom pode substituir o que até então nós gostávamos. O que não pode é continuar com o que não mais nos satisfaz.

Os sonhos não batem à nossa porta, é preciso ir até a padaria buscá-los. Muitos os desejam, por isso, se não formos rápidos, há o risco de ficar sem. O sonho acabou? Está em falta? Talvez seja o momento de procurar outro.

De vez em quando é legal levar sonhos para quem a gente gosta. Faz bem ver o sorriso no rosto dos que o recebem. Deixa a vida mais feliz.

Na vitrine, os sonhos nos sorriem. O prazer de saboreá-lo é o de um sonho realizado. Experimente-o. Sempre que bater aquela vontade, lambuze-se. A doçura que ele dá à nossa vida ajuda a suportar o amargo da realidade.

27 de fev. de 2008

O mudinho

Vez ou outra via um mudinho no bar da entrada do bairro. Ficava perto do bicheiro, e ganhava alguns trocados de quem ia fazer uma fezinha, ou do próprio 'contraventor penal'. Franzino, tinha o sorriso fácil e o linguajar nas mãos. Cumprimentava quem se aproximasse com a maior facilidade.

Aos poucos o mudinho desapareceu do lado da mesa. Estudava na escola do bairro vizinho. O tempo passou e uma noite, quando ia para a faculdade, o viu novamente. Mais magro, com a bermuda um pouco suja, percorria os coletivos, pedindo dinheiro para comer.

De banco em banco, o garoto levava a mão esquerda à altura do maxilar. Com a palma virada para cima, flexionava duas vezes os dedos em direção à boca, no típico gesto de quem quer comer. Em seguida, acariciava de forma circular a barriga e estendia a mão, pedindo dinheiro. Diante da negativa, juntava as pontas do polegar e do indicador e virava a mão para baixo, repetindo o movimento de colocar um vale-transporte na catraca eletrônica. Se ainda assim nada recebesse, fazia o sinal de positivo e ia para o próximo banco. Quase ninguém atendia seu apelo silencioso.

Na primeira vez, o mudinho ficou constrangido ao ver o conhecido da época da mesa do bicheiro. Pensou em nada pedir, mas o rapaz lhe deu as moedas que tinha no bolso e recebeu o aperto especial, cumprimento dos velhos tempos. Ainda o viu no ônibus outras vezes, até desaparecer novamente por um novo período.

Já trabalhando como jornalista e nem lembrando mais do mudinho, certa vez o destino deu-lhe a chance de saber que rumo o garoto tivera. Naquele dia estava responsável pela página policial do jornal e fora à delegacia, verificar as ocorrências. Acabara de chegar um flagrante de um rapaz pêgo furtando produtos de um supermercado.

Olhou e viu o mudinho, em pé, com um policial de cada lado, segurando seus braços. Mudara bastante. O sorriso fácil de criança parecia que nunca mais sairia daquele rosto. Alto, com 18 anos e corpo inacabado de adolescente, olhava para baixo. A face suja, o cabelo desgranhado, adquiriu uma fisionomia de bandido. Talvez estivesse usando drogas, ou roubando apenas para sobreviver. Não era a primeira vez que Mudinho (sim, agora com letra maiúscula, como era conhecido pelos policiais), era detido roubando alimentos.

Desta vez foi o jornalista quem ficou constrangido. Para sua sorte, o mudinho não o reconheceu. Não saberia como encarar o garoto de outrora que agora estava ali, prestes a ser preso. Arrependeu-se das vezes em que não o ajudou no ônibus. Sentiu-se um pouco culpado pela cena que estava presenciando.

Deu uma olhada nas fotos, na ficha de Mudinho. Ouviu os policiais e foi embora. Foi a matéria policial que mais lhe doeu escrever. A matéria saiu, assim como as outras da página policial, mas ele não ouviu a história do mudinho.